Vitória apertada de Lula é alerta para o PT

Por Bruno Carazza. Publicado originalmente no jornal Valor Econômico em 31/10/2022.

 

A festa foi bonita. Para além de derrotar Jair Bolsonaro, a vitória de Lula representa o ressurgir das cinzas da fênix do PT, depois de tudo o que o partido e seu principal líder passaram nos últimos anos.

Para entender este momento, na última semana eu mergulhei na leitura de “PT, uma história”, livro recém-lançado pelo sociólogo e colunista Celso Rocha de Barros.

Minha intenção era tentar compreender a estratégia da campanha de Lula e do PT neste segundo turno e descobrir por que, numa eleição tão disputada, havia tanta resistência dos petistas em anunciar nomes para um eventual governo ou em tomar posições mais ao centro.

Após a leitura, saí com uma compreensão melhor da alma petista – e como bônus, tenho melhores condições de antever os dilemas que o novo governo Lula enfrentará.

No dia 02/06/1979 houve uma reunião no Hotel Pampas, em São Bernardo do Campo, onde se reuniram parlamentares do velho MDB que fazia oposição à ditadura, lideranças sindicais e intelectuais. FHC e Lula estavam lá, assim como muitos dos políticos que criariam o PT e o PSDB no futuro.

Estava em pauta a proposta de fundação do Partido Popular, uma nova agremiação que seria de esquerda, democrática e com ampla participação popular. Em síntese, um partido social-democrata aos moldes europeus, de massa (por isso a importância dos sindicatos e movimentos sociais) e plural.

A proposta, obviamente, não foi pra frente. Naquele momento, Lula e outras lideranças decidiram levar a cabo a criação do seu próprio Partido dos Trabalhadores. Nascido a partir de diversos movimentos de base social, mas tendo à frente os sindicatos, e dividido em inúmeras tendências socialistas, o PT teve uma história única no Brasil e no mundo.

Olhando a sua trajetória em retrospecto a partir das lentes de Celso Rocha de Barros, é fácil observar que os erros e acertos do partido decorreram da postura assumida por seus líderes naquela reunião do Hotel Pampas que sepultou o Partido Popular e gerou a fundação do PT meses depois: a lealdade à sua forte base social e sindicalista, o purismo de suas origens socialistas e a resistência a fazer um movimento de direção ao centro.

Todas as grandes decisões do PT nas encruzilhadas históricas até chegar ao poder com Lula surgem daí: a recusa em se fundir com o PDT de Brizola ou com a ala à esquerda do PMDB depois do fracasso das eleições em 1982, a participação nas Diretas Já, o posicionamento progressista na Assembleia Constituinte, os programas de governo radicais de 1989 a 1998 e a obtenção da hegemonia na esquerda ao admitir Brizola de vice em 1998.

O radicalismo petista, por outro lado, também foi responsável por alguns de seus principais erros históricos: a abstenção na eleição de Tancredo, o voto contrário ao texto final da Constituição, a recusa em firmar um acordo programático com o PSDB no segundo turno de 1989 e a condenação do Plano Real em 1994.

Tivesse se mantido fiel às suas origens, talvez o PT demoraria muito mais tempo a chegar à Presidência da República. Porém, houve uma correção de rota radical depois das três derrotas de Lula entre 1989 e 1998.

Para viabilizar a vitória de Lula em 2002, o PT converteu-se ao centro: construiu uma ampla coligação com o PL de Valdemar da Costa Neto e lideranças do PMDB nos Estados, aliou-se ao empresariado escolhendo José Alencar como vice e acenou ao mercado e à classe média-alta com a Carta ao Povo Brasileiro.

Com o sucesso da primeira gestão de Lula e a ampliação da sua base com suas políticas sociais, o PT estava programado a finalmente se tornar o “Partido Popular” social-democrata cogitado no Hotel dos Pampas em 1979.

Mas no meio do caminho houve o mensalão, o petrolão, o impeachment de Dilma, a Lava Jato e a prisão de Lula. Após tantas crises, o PT voltou ao começo: mais radical, mais purista, mais de esquerda.

A eleição de Lula neste domingo reflete essa dicotomia. Lula só conseguiu um terceiro mandato porque re-energizou as bases do PT e reconquistou parte do seu eleitorado original, a classe média trabalhadora das grandes cidades do Centro-Sul do país.

Porém, o PT dificilmente retornaria ao Palácio do Planalto neste momento se não fosse o apoio de lideranças e dos eleitores ligados às lideranças ou aos herdeiros do velho MDB original – de Geraldo Alckmin a Simone Tebet, passando por FHC e demais tucanos históricos e economistas do Plano Real.

Fonte: Ricardo Stuckert/Instituto Lula.

O conflito entre a lealdade às suas “bases” e a necessidade de migrar ao centro para tentar pacificar o país promete ser a tônica do governo Lula a partir de primeiro de janeiro.

De uma certa forma, o cenário que Lula assumirá será semelhante ao que Dilma Rousseff herdou em 2011: condições internacionais muito desfavoráveis (naquela época eram as consequências da crise de 2008-2010, hoje é o pós-pandemia e a guerra na Ucrânia) e um quadro fiscal muito delicado após o vendaval de gastos eleitorais de Bolsonaro, que necessitará medidas de ajuste muito amargas.

Além disso, como descreve Celso, as reformas sociais transformadoras (na educação, na saúde, na assistência social) são muito mais complexas do que simplesmente resgatar o Bolsa Família e outras políticas de vinte anos atrás; elas vão demandar muito esforço político e os resultados demorarão a chegar.

Politicamente, o poder de barganha de Lula será muito menor. Com o bolsonarismo turbinando a extrema direita e trazendo a reboque boa parte do Centrão conservador, há pouco espaço político para Lula construir uma base sólida que lhe permita governar.

Em outros momentos da história não fazia sentido para o PT converter-se ao centro, pois ele foi ocupado primeiro pelo MDB de Ulysses e depois pelo PSDB de FHC. Hoje, há um vácuo político ali.

Mover-se em direção ao “Centro democrático” – aquele mesmo herdeiro do velho MDB e do PSDB históricos – é a única saída para Lula governar.

Resta saber se Lula e as várias tendências petistas terão a percepção de que esse movimento é o necessário para evitar que a vitória de ontem seja um canto do cisne.